Meu trabalho era árduo. Para mim, era apenas preencher relatórios
diários, meu chefe dizia de uma maneira que se não terminasse, a falência da
empresa poderia ser culpa minha. Dia após dia dentro de um prédio, cercado por
outros monstros de concreto cortando o céu cinza dessa cidade caótica. Pausa
para o café. Da minha sala até a cozinha eram pequenos passos que percorria com
o pescoço inclinado, a agonia era tão grande que achava que as pessoas poderiam
descobrir este sentimento de fracasso apenas fitando meus olhos. Não queria que
ninguém me olhasse, confesso que era medo e vergonha.
Hora de ir para casa, mas o transito está congestionado,
carros quebrados bloqueando as vias como se fossem placas de gorduras impedindo
o sangue correr pelas artérias. A chuva caía pesada, bendito aquecimento
global, pensei comigo, quando era criança não chovia tão forte assim. O som contínuo
dos limpadores de para-brisas estava me hipnotizando. Sinal abriu, pé no
acelerador.
Chego em casa e ligo
a televisão, mais tragédias, fujo para a cozinha na tentativa fugaz de sair
deste mundo, abro a geladeira e só tem um iogurte vencido. Mas ao fechar a
porta com toda força vejo um telefone de disk-pizza estampado ali, “por favor,
me mande uma cheia de calabresa, queijos e uma coca-cola dois litros”. Troco
para quanto senhor? Questiona-me a voz do outro lado da linha.
Pronto, fome saciada, deixo o que sobrou na geladeira, vai
virar meu café da manhã. Volto para a sala, sento em uma cadeira que meu vô me
deu de presente pela conquista do primeiro apartamento. Escuto buzinas, gritos,
ruídos, vozes e todos os ingredientes de uma cidade grande, pensei “Meu Deus,
isso não pára!” Aprofundei mais nesses meus pensamentos chatos e confusos e
disse em voz alta, “Cadê Deus? ”
Achei bobagem continuar pensando nisso, nunca fui religioso
ou ligado a essas questões, levanto-me e sigo para o banheiro, abro o chuveiro
e a água quente relaxa as dores musculares por um momento, “finalmente um prazer
neste dia”, veio a voz mental.
Esfrego a toalha nos cabelos que agora estão ficando
brancos, apertei bem no rosto. Abaixei-a lentamente e observei meu reflexo no
espelho embaçado pela água quente. “Você não está bem, não está legal, será que
isso vai acabar? ” Veio a voz mental novamente.
Hora de deitar, apago a luz do quarto, dou uma última olhada
nas mensagens aonde existem milhares de aplicativos de comunicação, eram
muitas, não vou ficar rolando a tela para baixo; pensei assim. A congelante
atmosfera, devido ao ar condicionado, invadiu meu pequeno quarto, belo convite
para enrolar no edredom, virar de lado e dormir, amanhã será mais um dia.
Bem nesta hora o celular vibra na cômoda, com alguma
dificuldade pego-o e vejo o nome escrito na tela “Pai”. “Poxa! O que meu pai
quer esta hora?” Pensei em não atender, amanhã falo quando tiver um tempo
livre. Mas não sei por que raios acabei atendendo;
-Tudo bem com você meu filho?
-Tudo pai! Já estava dormindo.
-Sua mãe pediu que eu ligasse, ela está preocupada com você –
disse ele com a voz calma de sempre
-Está sim, pai. Diga a ela que está tudo bem! E com vocês?
-Aqui está tudo bem, sua mãe comprou um monte de coisa
porque ela quer fazer lasanha neste fim de semana, você vem?
-Não sei pai, ando muito ocupado ultimamente, podemos falar
sobre isso amanhã?
-Tudo bem meu filho, saiba que gostamos muito de você. Seu
irmão pergunta de você todos os dias, sente saudades.
-Pode deixar Pai, assim que puder vou visita-los. Beijos
-Beijos meu filho, dorme com Deus.
Essa conversa foi curta porque eu queria, o sono era bem mais sedutor do que uma conversa pelo telefone e estava muito tarde. Mas desta vez não foi bem
assim.
Acordo no outro dia bem cedo, sigo na rotina, mesmo caminho,
mesma cobrança, mesmas decepções. Mas ao chegar em casa desta vez sento de novo
na varanda, fecho os olhos, respiro lentamente por longos segundos e quase que
institivamente ligo para meu pai. Desta vez sou eu quem pergunto a ele se está
tudo bem, pergunto como foi o dia dele. Mas o bate-papo foi evoluindo,
crescendo que ele colocou o telefone no “viva voz” porque mamãe queria falar
junto. Relembrando boas situações, rimos por horas! Duas horas de ligação, para
ser mais exato.
Depois disso, voltei a cozinha abri a geladeira e vi a mesma
cena, a pizza de ontem e o iogurte estragado. Estava com um sorriso leve no
rosto, mas ao observar aquele desleixo tirei o sorriso na hora. Empurrei a
porta com força e lá veio o número da pizzaria quase cobrindo o meu campo de
visão inteiro. “Desta vez não”, logo pensei. Peguei o carro e fui ao
supermercado. Comprei frutas, legumes, arroz e feijão. Cheguei em casa e
preparei no capricho. O sorriso voltou novamente.
No outro dia acordei bem mais disposto para trabalhar, pedi
uma reunião com meus superiores, juntos, elaboramos algumas planilhas e
pensamos em dividir alguns trabalhos em equipe, o que me magoava, agora me dava
forças, meu trabalho tinha que ser um desafio a ser enfrentado e com muito
zelo. Não queria reclamar, queria superar. Mal sabia ali que meu vocabulário estava
mudando.
E sabe aquelas compras de comida saudáveis? Ajudou a baixar
meu colesterol que andava alto. Sem contar que amigos são frequentes em meu apartamento
para provar meus novos dotes culinários.
Visito meus pais sempre, este ano mesmo vamos viajar para um
hotel fazenda no meio das montanhas de Minas Gerais, nunca fui, mas falaram que
é muito bom! Nestas reuniões familiares descobri que tenho vários parentes
legais que nunca nem fazia questão de conhece-los.
Agora eu sento aqui de novo na varanda, fecho os olhos e
pergunto de novo, “Aonde está Deus?”. Mas desta vez aprofundo-me na questão, e
chego na seguinte conclusão;
A vida não são milagres com histórias lindas, com trilhas
sonoras, moços e moças bonitas, efeitos especiais, cenários paradisíacos. A
minha história não tem um final igual de filme, mesmo porque nem acabou. Muito
menos cenas de tirar o folego, dois meses depois, após aquela minha pequena
atitude de ligar para meus pais e passar horas rindo pelo telefone foi o que despertou
o meu lado bom do ser humano, a partir dessa pequena atitude eu estava plugando
o meu carregador na tomada. Com apenas um simples gesto inexplorado nestes 42 anos de vida.
Uma boa vida é escrita diariamente, conviver com meus pais e
ouvir suas histórias é praticar caridade, e li uma vez que é na caridade que
somos abençoados pelo tal Deus. Caridade é troca! É alegria! Saber que eles me
amam e que eu amo eles me faz sentir a vida correr pelas minhas veias.
Aprendi que doar-me ao trabalho com dedicação colherei melhores
frutos, meus problemas na empresa não acabaram, apenas troquei as sementes para
o solo fértil. De cravos cheios de erva daninhas, agora colho as mais belas
flores.
Se esta pequena parte de minha história que você leu é
porque alguém se interessou e escreveu, mas agora ainda estou sentado na
varanda, o barulho da cidade caótica nem me incomoda mais, pois agora entendo
que Deus é aquele que está dentro de cada um, basta mudar sua percepção e
sentir esta força. E a paz de minha mente me faz ouvir cantos de pássaros
diante a selva de pedra.
Enfim, são quase meia noite e vou me recolher novamente,
ansioso pelo dia de amanhã, pegaremos o carro e vamos para as montanhas que
planejamos com a família, lembra que te falei sobre isso? O meu tio-avô Zé Carlos
não se aguenta de ansiedade em saber que vai rever a terra que ele nasceu. Saiu
de lá quando criança.
Abro a geladeira e tomo uma água, fecho de novo e agora
fotos que tiro por aí estão fixadas por lá, sim! Tenho um novo hobby, fotografias! Descobri que sou
apaixonado por fotografias! E elas tomaram lugar do imã do disk-pizza.
Da cozinha até o meu quarto, passo pela sala e vejo mais uma
vez o porta retrato de minha esposa que faleceu a dois anos devido ao parto do
nosso primeiro filho que também veio a óbito.
Desta vez não veio saudades, mas veio novamente aquele leve
sorriso no rosto ao observar o sorriso dela na fotografia. Desta vez respiro
fundo, fecho os olhos e digo alto, “Boa noite minha linda”. Pois agora sei que
ela sempre esteve ao meu lado, não em corpo, mas em alma. Prefiro pensar que
ela teve que partir para ser o anjo da guarda do nosso filho. Orgulho sobe pela
garganta, agora. Meus olhos brilham desta vez. Deus está em tudo, debaixo de
uma pedra, nos animais, nas pessoas, em tudo! Achei a resposta que procurava. Agora
tenho certeza que nenhuma folha cai em vão. Boa noite a todos.