sexta-feira, 27 de novembro de 2015

Como superei-me

Meu trabalho era árduo. Para mim, era apenas preencher relatórios diários, meu chefe dizia de uma maneira que se não terminasse, a falência da empresa poderia ser culpa minha. Dia após dia dentro de um prédio, cercado por outros monstros de concreto cortando o céu cinza dessa cidade caótica. Pausa para o café. Da minha sala até a cozinha eram pequenos passos que percorria com o pescoço inclinado, a agonia era tão grande que achava que as pessoas poderiam descobrir este sentimento de fracasso apenas fitando meus olhos. Não queria que ninguém me olhasse, confesso que era medo e vergonha.

Hora de ir para casa, mas o transito está congestionado, carros quebrados bloqueando as vias como se fossem placas de gorduras impedindo o sangue correr pelas artérias. A chuva caía pesada, bendito aquecimento global, pensei comigo, quando era criança não chovia tão forte assim. O som contínuo dos limpadores de para-brisas estava me hipnotizando. Sinal abriu, pé no acelerador.

 Chego em casa e ligo a televisão, mais tragédias, fujo para a cozinha na tentativa fugaz de sair deste mundo, abro a geladeira e só tem um iogurte vencido. Mas ao fechar a porta com toda força vejo um telefone de disk-pizza estampado ali, “por favor, me mande uma cheia de calabresa, queijos e uma coca-cola dois litros”. Troco para quanto senhor? Questiona-me a voz do outro lado da linha.

Pronto, fome saciada, deixo o que sobrou na geladeira, vai virar meu café da manhã. Volto para a sala, sento em uma cadeira que meu vô me deu de presente pela conquista do primeiro apartamento. Escuto buzinas, gritos, ruídos, vozes e todos os ingredientes de uma cidade grande, pensei “Meu Deus, isso não pára!” Aprofundei mais nesses meus pensamentos chatos e confusos e disse em voz alta, “Cadê Deus? ”

Achei bobagem continuar pensando nisso, nunca fui religioso ou ligado a essas questões, levanto-me e sigo para o banheiro, abro o chuveiro e a água quente relaxa as dores musculares por um momento, “finalmente um prazer neste dia”, veio a voz mental.
Esfrego a toalha nos cabelos que agora estão ficando brancos, apertei bem no rosto. Abaixei-a lentamente e observei meu reflexo no espelho embaçado pela água quente. “Você não está bem, não está legal, será que isso vai acabar? ” Veio a voz mental novamente.

Hora de deitar, apago a luz do quarto, dou uma última olhada nas mensagens aonde existem milhares de aplicativos de comunicação, eram muitas, não vou ficar rolando a tela para baixo; pensei assim. A congelante atmosfera, devido ao ar condicionado, invadiu meu pequeno quarto, belo convite para enrolar no edredom, virar de lado e dormir, amanhã será mais um dia.

Bem nesta hora o celular vibra na cômoda, com alguma dificuldade pego-o e vejo o nome escrito na tela “Pai”. “Poxa! O que meu pai quer esta hora?” Pensei em não atender, amanhã falo quando tiver um tempo livre. Mas não sei por que raios acabei atendendo;
-Tudo bem com você meu filho?
-Tudo pai! Já estava dormindo.
-Sua mãe pediu que eu ligasse, ela está preocupada com você – disse ele com a voz calma de sempre
-Está sim, pai. Diga a ela que está tudo bem! E com vocês?
-Aqui está tudo bem, sua mãe comprou um monte de coisa porque ela quer fazer lasanha neste fim de semana, você vem?
-Não sei pai, ando muito ocupado ultimamente, podemos falar sobre isso amanhã?
-Tudo bem meu filho, saiba que gostamos muito de você. Seu irmão pergunta de você todos os dias, sente saudades.
-Pode deixar Pai, assim que puder vou visita-los. Beijos
-Beijos meu filho, dorme com Deus.

Essa conversa foi curta porque eu queria, o sono era bem mais sedutor do que uma conversa pelo telefone e estava muito tarde. Mas desta vez não foi bem assim.

Acordo no outro dia bem cedo, sigo na rotina, mesmo caminho, mesma cobrança, mesmas decepções. Mas ao chegar em casa desta vez sento de novo na varanda, fecho os olhos, respiro lentamente por longos segundos e quase que institivamente ligo para meu pai. Desta vez sou eu quem pergunto a ele se está tudo bem, pergunto como foi o dia dele. Mas o bate-papo foi evoluindo, crescendo que ele colocou o telefone no “viva voz” porque mamãe queria falar junto. Relembrando boas situações, rimos por horas! Duas horas de ligação, para ser mais exato.

Depois disso, voltei a cozinha abri a geladeira e vi a mesma cena, a pizza de ontem e o iogurte estragado. Estava com um sorriso leve no rosto, mas ao observar aquele desleixo tirei o sorriso na hora. Empurrei a porta com força e lá veio o número da pizzaria quase cobrindo o meu campo de visão inteiro. “Desta vez não”, logo pensei. Peguei o carro e fui ao supermercado. Comprei frutas, legumes, arroz e feijão. Cheguei em casa e preparei no capricho. O sorriso voltou novamente.

No outro dia acordei bem mais disposto para trabalhar, pedi uma reunião com meus superiores, juntos, elaboramos algumas planilhas e pensamos em dividir alguns trabalhos em equipe, o que me magoava, agora me dava forças, meu trabalho tinha que ser um desafio a ser enfrentado e com muito zelo. Não queria reclamar, queria superar. Mal sabia ali que meu vocabulário estava mudando.
E sabe aquelas compras de comida saudáveis? Ajudou a baixar meu colesterol que andava alto. Sem contar que amigos são frequentes em meu apartamento para provar meus novos dotes culinários.
Visito meus pais sempre, este ano mesmo vamos viajar para um hotel fazenda no meio das montanhas de Minas Gerais, nunca fui, mas falaram que é muito bom! Nestas reuniões familiares descobri que tenho vários parentes legais que nunca nem fazia questão de conhece-los.

Agora eu sento aqui de novo na varanda, fecho os olhos e pergunto de novo, “Aonde está Deus?”. Mas desta vez aprofundo-me na questão, e chego na seguinte conclusão;

A vida não são milagres com histórias lindas, com trilhas sonoras, moços e moças bonitas, efeitos especiais, cenários paradisíacos. A minha história não tem um final igual de filme, mesmo porque nem acabou. Muito menos cenas de tirar o folego, dois meses depois, após aquela minha pequena atitude de ligar para meus pais e passar horas rindo pelo telefone foi o que despertou o meu lado bom do ser humano, a partir dessa pequena atitude eu estava plugando o meu carregador na tomada. Com apenas um simples gesto inexplorado nestes 42 anos de vida.

Uma boa vida é escrita diariamente, conviver com meus pais e ouvir suas histórias é praticar caridade, e li uma vez que é na caridade que somos abençoados pelo tal Deus. Caridade é troca! É alegria! Saber que eles me amam e que eu amo eles me faz sentir a vida correr pelas minhas veias.
Aprendi que doar-me ao trabalho com dedicação colherei melhores frutos, meus problemas na empresa não acabaram, apenas troquei as sementes para o solo fértil. De cravos cheios de erva daninhas, agora colho as mais belas flores.

Se esta pequena parte de minha história que você leu é porque alguém se interessou e escreveu, mas agora ainda estou sentado na varanda, o barulho da cidade caótica nem me incomoda mais, pois agora entendo que Deus é aquele que está dentro de cada um, basta mudar sua percepção e sentir esta força. E a paz de minha mente me faz ouvir cantos de pássaros diante a selva de pedra.

Enfim, são quase meia noite e vou me recolher novamente, ansioso pelo dia de amanhã, pegaremos o carro e vamos para as montanhas que planejamos com a família, lembra que te falei sobre isso? O meu tio-avô Zé Carlos não se aguenta de ansiedade em saber que vai rever a terra que ele nasceu. Saiu de lá quando criança.
Abro a geladeira e tomo uma água, fecho de novo e agora fotos que tiro por aí estão fixadas por lá, sim! Tenho um novo hobby, fotografias! Descobri que sou apaixonado por fotografias! E elas tomaram lugar do imã do disk-pizza.

Da cozinha até o meu quarto, passo pela sala e vejo mais uma vez o porta retrato de minha esposa que faleceu a dois anos devido ao parto do nosso primeiro filho que também veio a óbito.


Desta vez não veio saudades, mas veio novamente aquele leve sorriso no rosto ao observar o sorriso dela na fotografia. Desta vez respiro fundo, fecho os olhos e digo alto, “Boa noite minha linda”. Pois agora sei que ela sempre esteve ao meu lado, não em corpo, mas em alma. Prefiro pensar que ela teve que partir para ser o anjo da guarda do nosso filho. Orgulho sobe pela garganta, agora. Meus olhos brilham desta vez. Deus está em tudo, debaixo de uma pedra, nos animais, nas pessoas, em tudo! Achei a resposta que procurava. Agora tenho certeza que nenhuma folha cai em vão. Boa noite a todos. 

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